O que são notícias?

Falar mal da imprensa é legal, divertido, saudável, e todas as pessoas descoladas fazem isso hoje em dia. Geralmente, o foco é criticar alguma opinião ou escolha de assunto que tenham feito. Isso é importante, mas perde um ponto essencial, que é o que não é dito pela imprensa. Tempo é limitado, dinheiro é limitado, espaço editorial é limitado. Cada história que você escolhe cobrir toma o espaço de uma história não coberta. Por exemplo, escrevendo este texto estou deixando de publicar a receita para a omelete francesa perfeita no blog. Se o jornal está cobrindo a questão das crianças trans comprando material escolar, isso é espaço editorial perdido na cobertura de algo mais importante.

Um exemplo fresquinho é o que a CNN fez com a África do Sul. Aquele país é um país em crise. Pelos apagões de 10 horas por dia? Não. Fazendeiros brancos sendo torturados, e tendo suas terras roubadas? Ah, que tédio. Segundo a combativa CNN, a África do Sul está em crise pois um casal lésbico terá de achar outra casa de recepção para seu casamento. Recapitulando. Zero eletricidade, retorno a uma idade das trevas, nah. Tortura, revanchismo e brutalidade, aff. Fim da propriedade privada, tsc. Lésbicas não podendo servir brigadeiro gourmet e vinho barato onde elas estiverem afim, PAREM AS PRENSAS JÁ.

Meu ponto não é apontar o dedo para a CNN, ou para uma Folha da vida, por promover uma opinião pró-LGBT. A questão é que quando fazem isso, eles estão ignorando dezenas de outros assuntos mais importantes, e distorcendo a realidade. O texto da CNN literalmente usa o termo “realidade perigosa” para se referir a uma casa de recepção recusando um cliente, enquanto ignoram a verdadeira realidade perigosa de tortura e assassinatos. O grande filósofo Don Draper, de ‘Mad Men’, dizia que “Se você não gosta do que está sendo dito, mude a conversa.”, e a imprensa toma isso como lei. Enterrar histórias, realidades e assuntos desagradáveis com desimportâncias é cotidiano do jornalismo moderno.

Uma questão importante, que todo mundo deveria se perguntar, é o que são notícias? A palavra, em si, vem do latim notitia que significa algo notável ou notório. O funcionamento da coisa lida com alguma redação escolhendo o que é notório, importante, e o que você precisa saber no mundo de hoje. Por natureza, isso significa que outras pessoas estão determinando suas prioridades, sua visão de mundo, suas conversas e seu cotidiano. Isso é perturbador em diversas formas.

Primeiro que comportamentos, atitudes e conversas mudam de forma com a tutela da imprensa. Um exemplo (no gráfico abaixo) é “gordofobia” entre 2010 e 2020. No começo da década passada, isso era algo que só existia no Tumblr, hoje está em jornais, revistas, no sofá de Fatinha, e em nossas conversas. Uma simples piada de gordo, 10 anos atrás, seria repetida trocentas vezes no ‘Zorra Total’ e aceita sem problema algum. Contada hoje, mesmo em uma audiência receptiva, seria respondida com alguém “brincando” que aquilo é gordofobia. Não tem como “brincar” com essas coisas, a partir do momento em que você (que absolutamente não se importa) está com esse dogma na cabeça, tá tudo dominado. Se tornou mainstream, se tornou conhecimento público tutelado pela imprensa, já era.

https://trends.google.com.br/trends/explore?date=2010-01-01%202020-01-01&geo=BR&gprop=news&q=gordofobia
Pesquisa do termo no Google Notícias (01/2010-01/2020)

Segundo que o ato de rebater manchetes, assuntos e pautas por si só dá legitimidade as distorções da imprensa. Rebater significa que você está reagindo, não agindo. Mesmo consumindo de forma crítica, você segue consumindo. Na prática, isso significa que ao invés de usar seu tempo para discutir outro assunto, de maior importância, você vai gastar tempo falando de gordofobia ou algo do tipo. Seu foco foi desviado, sua atenção foi manipulada. Ao invés de falar sobre corrupção, leis estúpidas, assassinatos, genocídios você está falando sobre a falta de acessibilidade para gordos no banheiro trans.

Em conclusão, cada vez que a imprensa fala de uma bobagem, é espaço perdido para falar de coisa séria. E cada vez que paramos para rebater mentira e estupidez midiática; estamos jogando o jogo deles, seguindo o ciclo de notícias, e deixando de falar de assuntos mais importantes. Precisamos aprender a não cair nesse jogo, se gastamos todo nosso tempo respondendo e rebatendo, já perdemos, pois entregamos o controle de nossa mente e nossas pautas para quem nos despreza.

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