Guia 2020 ─ 5 temas para o ano

Mais um ano começa, mais Brasil para acontecer. Separei 5 pontos interessantes que certamente vão ser recorrentes no ano.

1. Reforma Tributária

Ainda não há claridade do que sairá do texto, que vai ser uma mistura de um texto do Senado, um texto da Câmara e sugestões do governo em si. O que se entende até agora é o objetivo de simplificar, eliminar impostos soltos e confusos sobre bens e serviços, e substituí-los por um imposto único, do tipo IVA (Imposto sobre valor agregado).

O congresso quer acelerar a votação, para aprovar tudo ainda no primeiro semestre, e para isso querem uma comissão especial que vai trabalhar durante o recesso parlamentar. Se vão conseguir, ou não, é a grande questão da coisa. Caso consigam aprovar no primeiro semestre, ótimo, a agenda de reformas avança e teremos um sistema tributário mais simples. Caso não consigam aprovar no primeiro semestre, não espere a reforma antes de 2021, pois tudo vai parar por causa das eleições municipais.

Francamente, creio mais no segundo cenário do que no primeiro. A reforma tributária não é vistosa, entre a população, como a previdência era. Mas ela é vistosa para estados e municípios, que perderão ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e ISS (Imposto sobre Serviço). A pressão desses governos locais com toda certeza pode atrasar o processo, e empurrar o processo para 2021.

2. Eleições Municipais

Você talvez não tenha sentido, mas assim que a contagem do ano novo terminou, o primeiro santinho de vereador do ano estava nascendo. Não interessa o que os políticos queiram dizer, o tema do ano são as eleições. Primeiro semestre é eleição, montar coligação, fazer audiências públicas e coletivas. Segundo semestre é eleição, campanha, mata ou morre. É por isso que não sou otimista com a reforma tributária saindo esse ano. Todos os canhões estão mirando na eleição, só resta uma tesoura de costura para atacar o resto.

É cedo demais para falar de cenários, mas a coisa caminha para virar uma disputa Bolsonarismo vs Esquerda, especialmente nas grandes capitais. Tudo num clima de revanche de 2018, aquecimento para 2022, e eterna reprise duma thread enjoada do Reddit. Isso tudo me dá um tédio desde o começo. São Paulo é tão 2004, vamos discutir o cenário eleitoral de Boa Vista (Roraima) ou Curitiba (Paraná)? A gente nunca dá atenção para eles. Mas não, vamos ter de engolir analistas políticos enchendo o saco sobre quem vai comandar Pinheiros-SP ou Laranjeiras-RJ, sobre como o prefeito do Rio é o cargo mais importante do mundo, e a sua cidade que se dane, o importante é saber de Sum Paulo.

Não se deixe levar por essas distrações. Pense global, aja local. O que realmente pode lhe afetar é o prefeito da sua cidade, e os vereadores. Não esqueça, de forma alguma dos vereadores. Se tem alguém que pode estragar sua vida do nada, sem aviso algum, este alguém é o vereador. Seja com uma proibição idiota de canudos, fim das sacolas plásticas, exigência de placas, exigência de placas (sério, jogue no Google “lei municipal exige placas” e veja a quantidade de coisa), ou alguma regulação ou virtue signalling que vai complicar a sua vida.

Não se deixe levar pelas narrativas, histórias e desvios da imprensa nacional. Se você não mora em São Paulo, a eleição de lá não importa. Faça o exercício mental de converter “São Paulo é uma prévia da presidencial!!!” (que vaicomo ser papagaiado por comentaristas como um mantra a partir de agosto) para “João Dória é o presidente da república, eleito em 2018, o PSDB ainda é o grande contraponto ao PT”. Concentre-se na sua cidade, e eleja um vereador que não vá regular e emplacar cada vírgula da sua vida.

3. Homem fala coisas, jornalistas dão chilique

Seguindo a linha de falar mal da imprensa, pegue o título desse tópico, grave ele em seu coração. Você vai precisar. Elegeram um tiozão que fala coisas, ele vai falar coisas. Isso não significa que a vida deixou de acontecer por causa disso, que o congresso deixou de aprovar coisa na surdina, que números negativos deixaram de sair, ou que outras histórias deixaram de ter importância.

Jornalismo de qualidade exige recursos, e um desses recursos é poder fazer 3 dias de pauta fácil sobre o Bolsonaro falar coisas. Não se deixe levar por isso. O tiozão falou coisas, OK, mas que outras coisas ocorreram hoje? Que dados ruins foram divulgados, que projetos estão prestes a serem aprovados no congresso, etc. Ainda mais importante, o que você está fazendo com a sua vida? O que você está melhorando, o que você está fazendo para não depender dessa flutuações políticas?

Ainda são os primeiros dias do ano, estamos saindo das reportagens de mandingas de final de ano para as reportagens sobre promessas de ano novo, mas semana que vem retornaremos ao roteiro Homem Fala Coisas Jornalistas Dão Chilique™. Pare de clicar, quanto menos tempo você gastar com essas distrações, melhor. Nem precisa usar esse tempo para classificar o genoma humano, até ver um documentário da Netflix é mais produtivo que focar no escâaaaaaaandalo jornalístico do dia.

4. Eleições Americanas

Ainda é cedo para falar do cenário, pois o campo democrata ainda está indefinido. Mas as consequências, para o Brasil, pouco tende a mudar. Com o Trump, ganhamos tarifas agora no final de 2019, que provavelmente seguirão em efeito. Com um democrata, provavelmente poderíamos perder as tarifas, em troca de alguma exigência ambiental (leia como Tarifa Do Bem™) que agrade a base da esquerda verde americana.

No mais, o Brasil se beneficiou com a guerra comercial, a exemplo da exportação de soja para a China, onde passamos a ter 75% da compra chinesa, que antes compravam soja americana. É provável que a guerra comercial continue para além de 2020, e isso fortalecerá as relações Brasil-China.

Fora da agenda econômica, algo importante dessa eleição americana são as redes sociais. Boa parte dos serviços mudaram ou vão mudar seus termos de serviço para a eleição. Censura, shadow banning e a falta de transparência estão virando norma. Dentro os exemplos, temos o Instagram sem número de likes e feed cronológico, que te mostra uma foto por te mostrar uma foto, só veja e não pergunte o motivo de estar vendo! Temos as regras confusas do YouTube, que permitem julgamentos casuístas, o que pode levar a expulsões sumárias e misteriosas do site. Aliás, não estamos longe disso aqui no Brasil, a comissão de fake news do congresso fala em quebra de criptografia com a ânsia de um gordo na fila do McDonald’s, e ambos são igualmente grotescos de se ver.

É importante prestar atenção no comportamento desses sites, e adotar plataformas alternativas caso necessário, pois dificilmente mudanças de regras são revertidas. Portanto, qualquer definição feita em 2020 será lei daqui para frente, afetando espaços e opiniões alternativas na internet.

Por último, uma guinada a esquerda na política americana deve ocorrer. Se não agora, certamente em 2024, pois o país está em um momento de mudança cultural. As novas gerações estão saindo das universidades com anos de doutrinação e marxismo cultural nas costas, as vezes desde o ensino primário! E a imigração em massa trás pessoas que não partilham dos valores tradicionais americanos e, portanto, fazem pouco caso dos republicanos ou mesmo de democratas moderados. Pense num brasileiro, acostumado e encantado com leis que proíbem (e prendem) “discurso de ódio”, ouvindo que a Primeira Emenda permite que você fale todo o racismo que seu coração mandar, mas que isso pode mudar 🙏🙏🙏pelo bem de tod@s🙏🙏🙏.

Países, empresas e movimentos são feitos de pessoas, e essas pessoas são regidas por culturas. Se a cultura é diluída, ou modificada, o país muda. A cultura dos millennials está saindo de uma meritocracia para uma cultura de “privilégios”, “vítimas” e ressentimentos. Não bastando a tendência jovem, ainda entram pessoas de outras culturas, sem grande costume ou apreço pela liberdade, mas com o mesmo poder de voto. Uma guinada por mais estado, mais intervenção, e mais controle se torna inevitável.

5. Meio Ambiente

Ambientalismo, como desculpa para regular e controlar, é um tema que não vai sumir, em 2020. Independente do Brasil criar ou não novas regulações, nossa vida vai mudar do mesmo jeito.

Com a proibição de carros não elétricos, em boa parte da Europa a partir de 2030, não faz sentido investir em novas tecnologias para carros convencionais, já que eles serão defasados em uma década. Logo, as empresas estão demitindo, cortando e eliminando. Isso significa que a qualidade dos carros vai estagnar ou decair nos próximos anos, e que possivelmente seremos forçados a adotar carros elétricos aqui também. Algo que de forma alguma pode dar errado, com a energia elétrica barata e abundante no Brasil. Carros elétricos são uma briga importante para o libertarianismo, pois em todo o mundo seu avanço surge com ajudinha estatal, e o grande perdedor com essas manipulações somos nós.

Fugindo da perspectiva de regulamentações, conte com o uso do meio ambiente em qualquer negociação de política externa feita daqui para frente. Assim como Macron fez ano passado com o acordo MERCOSUL-UE, outros usarão o espantalho do meio ambiente em qualquer conversa que envolva o Brasil. Se prepare para as histórias de catástrofe ambiental na mídia internacional, e para a falta de contextualização das críticas externas, na mídia nacional. A revolta de Macron, em setembro de 2019, foi motivada pelo acordo MERCOSUL-UE e suas consequências aos fazendeiros franceses. Boa parte da imprensa nacional sumariamente ignorou isso! Focaram em como Bolsonaro é o vilão da novela, e Macron é o mocinho (bonito e jovem!) salvando o mundo.

O roteiro daqui para a frente seguirá nesse esquema, toda negociação será respondida, ou divergida, com alguma conversa sobre meio ambiente e preservação das florestas. A lição é entender que sempre há uma história por trás da história, questione e procure o contexto/interesse de qualquer reclamação ou movimento repentino.

Um comentário em “Guia 2020 ─ 5 temas para o ano

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